Fotografia: Inês Dust

Não acredito no amor à primeira vista. Atrevo-me mesmo a dizer que ele não existe. O amor é uma construção. Leva tempo, leva dedicação. Já a paixão, ou atração, aparece de repente, sem avisar. Um pequeno estímulo que desencadeia em nós uma série de reações bioquímicas, trazendo-nos algumas das mais famosas sensações do mundo — o corar; as borboletas na barriga; o calor; a excitação e o dilatar das pupilas. Tudo isto pode acontecer numa fração de segundos. Não precisamos de conhecer a pessoa para nos sentirmos atraídos por ela. Acontece — puffff — e sentimos. Assim, do nada. Se bem que, a diversidade humana é imensa, pelo que existem muitas pessoas que precisam de algo mais para sentirem atração. Há quem precise de conexão emocional (demissexuais), outros estão dependentes da capacidade intelectual da outra pessoa para poderem experienciar alguma espécie de atração (sapiossexuais).   

O amor está mais perto da dor do que do prazer, na minha perspetiva. Quanto maior é o amor, maior é a dor e o medo. O medo de perdermos a pessoa que amamos; a dor de ver o outro sofrer… O amor traz responsabilidade e preocupação. Traz-nos, também, a empatia e a sua capacidade de sentirmos o que o outro sente. O amor apenas nasce com a experiência e a repetição.  

A amizade é um dos estágios mais bonitos do amor. Não existe pressão: a pressão que a tensão sexual e os papéis de géneros nos colocam em cima; a pressão para seguir uma linha condutora, dotada de regras sociais, para completar os diversos passos que se esperam de uma relação entre dois (ou mais…) seres humanos. Quando se é amigo, as expectativas são relativamente baixas. Não dependemos somente de uma chama efémera. Temos mais tendência em mostrar logo as várias facetas da nossa vida, do que apenas a mais bonita. Pelo menos é assim que sou com os meus amigos e eles o são comigo. Para quê ter amigos circunstanciais, quando se pode ter amigos para todas as ocasiões?   

Exercício mental

Sempre fui muito observadora. Gosto de analisar as interações humanas, as reações, as intenções e tentar perceber o que vai na cabeça de cada um. Numa outra vida teria ido para sociologia ou antropologia. Mas, já que não fui, costumo refletir nestes assuntos, sozinha, ou com a minha psicóloga. Talvez a minha capacidade observacional, aliada à minha natureza emocional, me tenha permitido colocar-me, hipoteticamente, na pele das outras pessoas. Algo que me permite sair da minha realidade e calçar os sapatos de outrem, com vivências totalmente diferentes da minha. Quanto mais diferentes esses indivíduos forem de mim, maior e mais interessante é o desafio.

Costumo realizar, com frequência, o exercício mental do “como olharia para alguém como eu, com deficiência, se eu não tivesse deficiência?”. Ou, melhor, “como me sentiria se eu não tivesse deficiência e sentisse um quê de atração por alguém com deficiência?”. Sentiria vergonha? Medo? Indignação? Faria de tudo para reprimir os meus sentimentos? Não contava a ninguém?   

Sentir atração por alguém com deficiência, mesmo que posteriormente tenhamos outros sentimentos, consequentes dos nossos preconceitos, já é, na verdade, um passo dado em frente. Quantas pessoas não sentem atração ou amor porque, no seu subconsciente, nunca, jamais, lhes passou pela cabeça que podiam olhar para alguém com deficiência com outros olhos? Conscientemente podemos nem sequer nos aperceber da quantidade de barreiras emocionais que temos, derivadas dos preconceitos enraizados nas nossas mentes. Isto, porque ter um preconceito não significa que 1. — Sejamos vocais em relação a ele; 2. — O exprimamos ativamente; 3. — Saibamos da sua existência; 4. — Achemos, conscientemente e com toda a convicção, que não o temos, de forma alguma.   

Desamor ao preconceito

À medida que vou crescendo vou tendo a certeza de que todos nós, sem exceção, temos preconceitos. Conceitos que foram previamente concebidos consoante a informação a que fomos expostos até então. Informação esta que poderá ter variadíssimas fontes: a educação, o meio onde nos inserimos, a religião, a cultura que bebemos e as experiências que temos. Uma pequena fração de informação é capaz de nos moldar e fazer-nos acreditar que uma parte pode valer pelo todo. Com base num, apenas e somente, dado, formamos toda uma opinião superficial e não sustentada de um todo. Suponho que quanto maior seja a quantidade de informação a que somos expostos, que nos mostre apenas parte de um todo, maior será o nosso preconceito.    

Às vezes o problema pode nem estar em conhecer apenas parte de um conceito. Poderá estar, também, na interpretação que fazemos dela. Interpretação essa que, por sua vez, é influenciada por outras tantas fontes de conhecimento. O círculo é infinito até que ponhamos um travão manual. Não é fácil desaprender o que assimilamos durante uma vida inteira. Mas, acredito que a desconstrução da arrumação social, que nós próprios criamos, nos possa trazer mais ideias pós-conceptuais (e não pre-conceptuais) sobre cada um de nós e as maravilhas que as gavetas da sociedade não conseguem armazenar.   

Eu não sou livre de preconceitos. De todo. Somos todos feitos de tendências e ideias pré-concebidas, e eu não sou exceção. Os preconceitos são o espelho das nossas fragilidades. Acredito que, reconhecendo e partilhando-os, conseguimos criar um discurso saudável, e um movimento de autoconsciência e desenvolvimento pessoal. Há muito para desaprender e evoluir.  

Dia dos mal-amados

Não há capacidade mais nobre do que saber ver beleza em todo e qualquer ser humano. Somos todos dotados da mesma matéria orgânica e, como tal, merecedores de amor. Dos mais feios, aos mais bonitos; dos marrecos aos direitos; dos simpáticos aos antipáticos. Há amor que chegue para todos, eu sei que há. Tem de haver. Se não, qual o sentido da vida de quem é mal-amado? 

Hoje, penso em todos aqueles que, tal como eu, ainda não conheceram o amor romantizado. O dia também é nosso, tal como todos os dias são. Hoje quero lembrar-me da capacidade universal que temos para amar o próximo.   

Porque amar será sempre, também, uma escolha.  

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Raquel Banha

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Comments

  1. Arcângela da Conceição Dias Madeira Marques (reformada)

    Obrigada Raquel, pelo magnífico texto que acabei de ler. Penso muitas vezes, como tu, no poder que tem o preconceito para nos bloquear, para nos dividir e impedir de ter saudáveis. Só o amor tem, até aqui, vencido cabalmente o preconceito. O amor das mães, cujos filhos nascem, com uma qualquer incapacidade é prova disso,.
    Mais uma vez, fica patente, a importância do autoconhecimento. Através dele, entende-se o que é um ser humano, a sua essência, a sua importância, que não depende da raça, da beleza, da saúde, da idade, da situação económica, ou da instrução recebida.
    Saber o que somos dá-nos dimensão e respeito por todos os seres. O entendimento, ultrapassa o julgamento e o preconceito A dimensão da VIDA, diminui-nos o ego, e traz simplicidade.
    Confio nas novas gerações, para inverter a nossa ignorância

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