Quando a cabeça não tem juízo, o corpo é que paga #Covidizer

Recuemos a 11 de junho, quinta-feira. Era de noite, estava no sofá a ver um filme com a minha mãe (provavelmente uma das atividades que mais gosto de fazer) e perto da meia-noite recebo uma chamada da Ana, a minha assistente pessoal. De início não achei estranho o facto de estar a receber uma chamada àquelas horas, confesso. É comum jovens na casa dos 20 falarem uns com os outros pela noite dentro. Desliguei a chamada, não atendi. A hora de ver filmes é sagrada e, além disso, estava meia deitada, o que me dificulta bastante a comunicação oral. Ainda assim, justifiquei-me por Whatsapp e pedi-lhe que me enviasse um áudio com a mensagem que me queria transmitir que, assim que possível, ouviria e responderia.

Sou naturalmente impulsiva e impaciente, pelo que, passados poucos minutos, dou por mim a ouvir o áudio. Que, já agora, era dos grandes – tinha mais de 4 minutos. Enquanto oiço a mensagem sinto uma adrenalina maliciosa a invadir-me as costas e a barriga e, estou certa, que as minhas pupilas ficaram dilatadas. Tinha acabado de ouvir que o namorado da minha AP estava com febre e cheio de dores no corpo. Tentei imediatamente controlar a minha ansiedade e pensar de forma racional, mas era inevitável a ideia de que a Ana poderia estar infetada com covid-19, tal como eu. Isto, claro, pressupondo logo que o namorado estivesse efetivamente contaminado.

Após muita reflexão conjunta com a Ana e os meus pais, decidi que o melhor seria a Ana deixar de me dar assistência até se saber o resultado do teste do namorado. E assim foi: sexta-feira fiquei sem assistência. Um dia sem assistência, confinada dentro de mim mesma, inundada por pensamentos intrusivos e indesejados. Mais tarde, a minha barriga começa a dar sinais de si. Ou melhor, o abdómen, no lado esquerdo. Normalmente, perante aquela dor, costumo dizer que me dói o pulmão (mais especificamente a base). É uma sensação, digamos que, bastante habitual. Já estou farta de levar na cabeça pelas minhas médicas, visto que é cientificamente impossível sentir dor no pulmão, só, e apenas, na pleura (membrana que envolve o pulmão). Mas a verdade é que era uma dor que se intensificava com uma respiração mais profunda. Contudo, tentei ao máximo racionalizar a sensação e pensar naquilo que seria mais provável: uma mera dor de barriga. Dor de barriga esta que foi aumentando de intensidade e durou uma fucking semana inteira.

Entretanto o resultado do teste do namorado da minha assistente veio, no sábado, e deu negativo. Um alívio enorme se instalou em minha casa e, com certeza, na casa da Ana também. Já podia voltar a ter assistência e continuar a vida como nada se tivesse passado. Ainda assim, as minhas dores de barriga persistiam. Na segunda-feira seguinte foi o aniversário da minha mãe e foi a primeira vez que me reuni com várias pessoas não coabitantes. A festa foi segura – juntamos a família mais próxima no jardim aqui ao lado da minha casa, o uso de máscara era obrigatório, tal como o cumprimento da distância de segurança. Fez-se uma espécie de piquenique. Mas eu não me senti confortável, não estava à vontade. Estavamos ao ar livre, sim. Tinha colocada a minha viseira, mas ver toda a gente a comer, obviamente, sem máscara, fez-me estar constantemente em alerta e ver, inclusive, todos os pequenos deslizes, partilhas de comida… Estava desconfortável com o conforto geral e o à vontade de toda a gente.

O dia passou, a noite também, e um novo amanhecer nasceu. Acordei com uma sensação estranha, desconfortável. Sensação que me levou a ver a febre, já que me sentia demasiado quente. O pior confirmou-se: estava com mais de 37ºC, o que, oficialmente, queria dizer que eu estava com febre. Com febre e dores no abdómen. Naquele preciso dia deixei de ser eu. A ansiedade tomou conta de mim e conduziu-me durante o resto do dia. Entrei numa espiral de pânico e hiperventilação. Media a febre quase de hora a hora e estive completamente vidrada no oxímetro que tenho cá em casa (aparelho que mede os níveis percentuais de oxigénio no sangue e os batimentos cardíacos). Embora a saturação de O2 estivesse razoável, o coração parecia estar num torneio de fórmula 1. E assim foi durante o dia todo. Eu, na cama, quente e cheia de calor, constantemente em alerta comigo mesma e totalmente consumida pela ansiedade. Cheguei, inclusive, a atingir os 37,7ºC de febre. Foi um dia para esquecer. Até que chegou a noite e estava certa que aquele dia já não tinha mais nada de positivo para me dar e decidi ir descansar. Tomei os meus comprimidos anti-vida e pró-sono e fui dormir.

Após uma terça infernal, acordo na quarta-feira como se nada tivesse acontecido. Estava sem febre, bem, e pronta para um dia normal de teletrabalho. O resto da semana foi uma espécie de ressaca e reabilitação de um bruto choque de ansiedade provocado pelo susto do namorado da minha assistente e o desconforto consequente da festa de anos da minha mãe. Após a dor de barriga, veio a dor de estômago. Um típico e comum sintoma quando estou mais ansiosa. Era como se o meu estômago fosse uma bola de fogo, a sangrar e a corroer-me por dentro. Além de dores sentia contrações fortes no abdómen, que normalmente podem indicar úlceras nervosas.

Eventualmente comecei a recuperar e a voltar à normalidade. O lado lunar da minha cabeça tinha feito o jogo mais macabro de sempre com o meu corpo. Em vez de ataques de pânico convencionais, tais como gritos, desmaios e estado ofegante, o meu cérebro pegou nas cordas da marioneta que é o meu corpo e começou a brincar aos pesadelos. O pânico deu lugar à febre e às dores abdominais. Durante uma semana não fui dona de mim mesma. Perdi o controlo e a lucidez. Não tive juízo, logo, foi o meu corpo que pagou. Pagou e bem.

Tenho em mim um lado escuro e doente que, na verdade, sempre fez parte de mim. Em criança tive momentos onde era incapaz de distinguir o que era ou não real. Lembro-me de não suportar estar em divisões fechadas, pois não conseguia imaginar uma realidade para além do meu campo de visão. Não confiava (e não confio) nas pessoas quando me diziam “venho já”. Há 23 anos que luto uma guerra constante dentro de mim – entre a sanidade e a doença, entre o bem e o mal, entre o escuro e o claro. Há mais de 10 anos que sou medicada e que dependo obrigatoriamente de “drogas” para conseguir viver uma vida aparentemente normal. Há 23 anos que anseio viver num mundo onde os loucos são compreendidos e a saúde mental tem a mesma importância que a saúde física. Quero poder falar abertamente sobre as minhas emoções, por mais distorcidas que sejam, com a minha família. Família esta com um vasto historial de depressão, bipolaridade e esquizofrenia. Quero que os meus amigos não se sintam constrangidos com o meu discurso, por vezes, demasiado deprimente. Quero também poder ler mais histórias como esta que vos acabei de escrever.

Quero viver num mundo onde pessoas como o Pedro Lima não sintam que o suicídio é a única solução, porque não é. Quero viver num mundo onde todos os Dom Quixotes têm um lugar seguro para viver as suas aventuras de cavalaria e enfrentar todos os seus monstros e gigantes.

Porque uma coisa eu tenho a certeza: quando a cabeça não tem juízo, o corpo é que paga.
                  
+1
1
+1
0
+1
0
+1
0
+1
0
+1
0

Raquel Banha

Partilha este artigo

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *